Quando a vi naquela varanda tive a impressão que era uma amiga de infância. Uma pessoa que comigo, sempre se deu bem e por algum motivo, mudou de endereço e acabou caindo no esquecimento por falta de contato. Pareceu uma situação daquelas onde dizemos "que bom ver você aqui, senti sua falta", mas sem precisar dizer nada. Um momento onde o tempo se desdobra intenso, quebra as regras de marcação se tornando mais parecido com o infinito. Um lapso de memória futura, lembrança de algo que ainda não aconteceu, que extravia os conceitos de acontecimento já definidos.

Não acredito em fatores pre-determinados como já ouvi diversas vezes teorias sobre destino. Destino é a consequência de um ato pensado, elaborado e bem definido. Também pode ser quando viajo, daqui para o local de destino. O Michaellis diz que destino também pode ser "entidade misteriosa que determina as vicissitudes da vida". De vicissitude, entendo eventualidade. Entidade é um órgão, governamental ou não, com ou sem fins lucrativos, de sociedade única ou limitada. Entidade misteriosa, só conheço as de terreiro e centro espírita. Prefiro acreditar que eu decido a hora e o momento. Tenho as rédeas do pensamento. Faço o tempo despedaçado, mas pra qualquer efeito, não sou culpado. Bem que às vezes não dá pra segurar o pensamento, nem tentando pensar em outra coisa. Isso tem até acontecido com frequência, principalmente nas horas de descanso, onde não consigo tirá-la da cabeça. Acho que é porque não está na cabeça. Está em meu corpo, por meu sangue, abraçado com minha alma.

O tempo é igualmente proporcional à vontade e interferência da gente. Uma hora pode ser muito tempo, assim como um mês pode ser pouquíssimo. Nessa variação dinâmica, o tempo do tempo quem faz é a gente. O tempo é imprevisível, desejável, oportuno, concebido. Mesmo com todas as diferenças pessoais, educacionais, de pontos de vista e posturas em relação às questões gerais, a vontade e o prazer em "ser" parte de um inteiro em conjunto é altamente dependente do tempo. Do nosso tempo.

Quando a encontrei, alguns dias depois que a vi, o tempo se tornou troca. Um vai e vem intimista e minucioso de olhares certeiros, como na música do Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles. Qualquer dúvida relativa ao acontecimento de alguma coisa que tivesse ficado na varanda se perdeu ali. Foi como desvendar um mistério da ciência. Afirmar uma nova filosofia. Transcender a arte.

No meio da transparência de uma situação definida, fiz-me o avesso e ao reverso, estabelecido, na busca da junção do que parece um quebra-cabeça de peças perfeitas, de resultado impecável, onde os encaixes se tornam invisíveis quando as peças são unidas. Me senti átomo. Parte fundamental da formação da matéria. O essencial de um elemento. Atômico. Explodido de exuberância e fraternidade. Átono. Calado pela pureza do encontro. Sem tônica de expressão. Atônito. Entorpecido da maravilha do desconhecido que nunca tive antes vontade de descobrir.

Tentei passar despercebido pelo desejo mas não teve jeito. Tentei ser duro como rocha mas me deu defeito, não tive peito. Fiz o possível do provável para parecer desleixo mas fui suspeito. Derreti de repente. Derrapei no rompante. Atolei numa lama. Refiz os versos da canção que esperava ser composta. Expandi a melodia singular tirando-a num solfejo. Harmonizei o que não tinha outro jeito a não ser cacofônico. Escalei cromático um segmento diatônico.

Agora, percebo quieto o som do desejo. Sozinho, moderado, lembro intenso o gosto do beijo. Desarmado e vulnerável, o que está feito, está feito.

Admirado, quando ela quiser eu apareço.

Fase dois da reflexão da janela,
aos que se identificaram.

imagem de Marilia
# - Marilia sex, 20/06/2008 - 20:43

Achei lindo o seu texto. Você escreve bonito! Você é uma pessoa especial!

Beijos

imagem de Leonardo Silva
# - Leonardo Silva sab, 21/06/2008 - 14:59

Obrigado Marília. A escrita é incontrolável pra mim. É uma forma de expor algo maior que eu. Beijos!

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