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Literatura



Meu coração quando te vê

O Davi, meu filho, fez 2 anos no dia 3 de maio que passou. Infelizmente, por causa do acúmulo de tarefas e da sobrecarga no trabalho, não pude ir vê-lo em Minas Gerais e nem criar alguma coisa interessante em homenagem a ele para publicar aqui. Xurumelas de lado, fica mais um poema ao Davi, que quando recitado se encaixa em uma música instrumental feita por mim, a algum tempo - pra não dizer antiga.

meu coração quando te vê
é um poço sem fundo
cheio de alegria
dobra, redobra e desdobra o mundo
na face do riso
deslumbrado de fato
multiplica

replica o ato
o carinho da mão no rosto
o beijo, o abraço
o salto melhor que o do gato
sente tanto
estupefato
harmonia em movimento
numa canção confortável e acolhedora

pula, brinca, salta, joga bola
canta, vira cambalhota
toca um instrumento
vira ao contrário
e depois
de lado
gira, volta
depois vai
desmasiado contente

fica permanente
extasiado
num momento estipulado
pela vida
extremo calmo
roda, grita
sem pirraça
estilhaça
tudo o que não cabe
dentro

ao reverso

dentro
tudo o que não cabe
estilhaça
sem pirraça
roda, grita
extremo calmo
pela vida
num momento estipulado
extasiado
fica permanente

desmasiado contente
depois vai
gira, volta
de lado
e depois
vira ao contrário
toca um instrumento
canta, vira cambalhota
pula, brinca, salta, joga bola

numa canção confortável e acolhedora
harmonia em movimento
estupefato
sempre tanto
o salto melhor que o do gato
o beijo, o abraço
o carinho da mão no rosto
replica o ato

multiplica
deslumbrado de fato
na face do riso
dobra, redobra e desdobra o mundo
cheio de alegria
é um poço sem fundo
meu coração quando te vê

Pra não dizer que não falei do amor

Coração em chamas

Subi no pedestal só pra ver como eram as coisas lá de cima. Gostei da adrenalina, desci pela humildade. Calei para não causar constrangimento, sem me sentir constrangido. Sentimento mexe com a gente e em muitos casos é fácil ser confundido. Saber separar não é dom. Consciência não é sinônimo de intelecto, muito menos de frieza. Evito o duplo sentido, para dar certeza. É mais difícil evitar as metáforas.

Penso em sentimento quando me falam sobre amor. Ninguém depende de outro para sentir. É interno. Assim como felicidade. Sentimento pode depender de situação, que por sua vez, foi relacionada a alguma pessoa, por ato, tragédia ou fato. Em sã consciência, digo que alguma pessoa não é diretamente ligada à situação, pois essa é criada internamente. Neste caso, alguma pessoa é como um objeto que apareceu no meio do caminho. Alguém para ser responsável.

Amor é incondicional. Por isso, não depende de palavras, e-mails, telefonemas, sms, proximidade, de pessoa ou situação. Não é labirinto e nem precisa ser descoberto. Amor sofrido não é amor. É redenção, imposição, propriedade, consumismo, qualquer coisa, menos amor. A metade da laranja se enroscou com o espremedor de suco e ficou esperando telefonema no dia seguinte, além de ter ficado oca. O espremedor de suco saiu molhado e se lavou, esperando outras metades. Os dois viveram felizes para sempre.

Nunca mais e para sempre são tempos impalpáveis, fora da nossa realidade. Já ouvi falar de alguns nomes que viveram a centenas de anos antes, mas do Uga Bando que fez descobertas incríveis para seu povo e que assobiava quando queria acasalar, ninguém fala.

Sincronia e relatividade podem ser concretos, prováveis e conscientes. Assim como o meu amor, que não é interferível, é independente e se cala quando durmo.

Não precisa entender.

Fase quatro da reflexão da janela,
aos que se identificaram.

Pra ela(s)

eu gosto tanto dela(s)
ela(s)
bela(s)
me deixa(m) sem rumo
mesmo que eu não esteja ali

de tanto ver novela(s)
eu pensei
que ela(s)
fosse(m) um tipo
cinderela(s)
que me mostraria(m)
um pouco
talvez muito
mais de mim

não é conto de fada(s)
ela(s)
minha nossa
amada(s)
fica(m) sempre
mal humorada(s)
todo mês
sempre tarada(s)
se eu a(s) deixo
apaixonada(s)
com carícia(s)
beijo(s)
língua(s)
uma delícia
mas tem vez(es)
que não
é assim

prefiro sim
mostrar pra ela(s)
o quanto fico
tão sentido
quando ela(s)
por algum motivo
não pode(m)
me acompanhar
nesse poema
nesse jantar
de carne de panela
com mesa a luz de vela(s)
que eu carinhosamente
preparei
pra ela(s)

...

Mulher, parabéns pelo seu dia!

Ao ar, ventei

Ventei

Juntei tudo que podia, demorada e custosamente, pra depois desfazer o resto. Calculei exato, em equação inteira, o gosto da umidade. Compartilhei a temperatura de meu corpo, suei quando estava frio. Sem segundas intenções. Só queria plainar. Por qualquer quantidade de tempo que fosse, desde que íntegro, fosse. Mesmo sabendo dos fatores que interferem diretamente no eu inteiro, limpo e puro, me soltei.

Expira... inspirei.

Árvore, por favor, multiplique-se. Quero mais de você. Deixe a timidez de lado e apareça mais. Não tem pulmão, nariz, roupa larga, nem pele macia que me aguente. Só folha que me entende. Ela que me massageia, me limpa, saboreia. Tudo bem que se eu não peço, ela não me norteia. Fica quieta, na sua. Mas é a única que sempre me espera e sofre quando uma mão diferente da minha mexe com ela. Sofre tanto que diminui de quantidade, de tamanho. Eu também acabo sentindo com isso, pois esbarro em motocicleta, semáforo, coração despedaçado, pilastra.

Do céu, saltei. Ao ar, ventei. Não tem como ser de outro jeito, meu bem. Sou instável, impalpável. Dependo de uma série de situações para estabelecer qualquer definição. Mesmo assim, cada esquina sou diferente. Meu humor incontrolável, é meu adorável, amor. Minha capacidade é infinita. Assim, de brincadeira, bagunço seu cabelo, levanto sua saia, tiro o seu chapéu e na sombra lhe faço frio. Sem pensar duas vezes. Na maior sem vergonhice. Só peço que não me irrite. Posso levar a sério e secar. Terá dificuldade de respirar. Posso realmente me descontrolar. Trazer a terra pro mar.

Considere. No espaço, sou rei.

Mas não pense que eu sou sempre assim. Tenha certeza. Também não tente mudar o que a natureza fez. Me respeite. Antes que qualquer coisa existisse, lhe respeitei. Disso, nunca deixei. Parei e lhe proporcionei, completo, uma necessidade do seu corpo. Sem pedir nem querer nada em troca.

Inspira... soprei.

O que faço, é a única coisa que sei. Com todos eu troco, porque diferente disso, não farei. Demorei, mas percebi que quando volto a um lugar pela segunda vez, me alterei. Natural. Ser de outro jeito, não sei. Até mesmo se quiser me preservar num pote, igual, nunca serei.

Na hora em que tudo estiver organizado, esclarecido e livre de conceito equivocado, não me avise. Perceberei. Sentirei, a cada mutação minha, a percepção sua. Incluso vice e versa. Completo, refiz o início.

Espirra... Saúde.

Na foto, Deby, que gentilmente cedeu a imagem.

Um certo marido

Marido e Mulher

Chegou pra mim por e-mail, intitulado "Desabafo de um bom marido", referenciando a autoria a Luiz Fernando Veríssimo. Não sou o maior conhecedor de Veríssimo, mas duvido que seja de autoria dele. Está até bem escrito, mas o "jogo" (além de umas vírgulas em lugar inadequado - que fiz questão de deixar - e algumas expressões "óbvias") não tem muito a ver com Veríssimo. Se for, desculpa aí, Fernandão. Vou ler mais seus livros.

Não sou casado, mas o texto é esse:

...

Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.

Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse: "Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar". Daí, comprei uma cadeira elétrica.

Eu me casei com a "Sra. Certa". Só não sabia que o primeiro nome dela era "Sempre".

Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.

Ela perguntou: "O que tem na TV?" E eu disse "Poeira".

No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa pra cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim. Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.

Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa. Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei. "- Quando você terminar de cortar a grama," eu disse, "você pode também varrer a calçada." Depois disso não me lembro de mais nada.

Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.

"O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido..."

...

Revendo: Vírgula antes de "e", liquidificador elétrico (alguém conhece um liquidificador que não seja elétrico?), aspas, hífens, fora os parágrafos (que eu organizei)... Isso não é Luiz Fernando Veríssimo nem aqui, nem na China.

Senhor autor, por favor, identifique-se para que eu possa dar os créditos devidos.

Lançamento do livro Crônicas de Nord

Crônicas de Nord

A Letícia tem enviado dicas muito interessantes. Obrigado Letícia! sorriso ***

19/07/2008 - LANÇAMENTO DO LIVRO CRÔNICAS DE NORD

AUTORES: MARCO VERTICCHIO E ARNALDO

Horário: 17h as 21h

Local: Espaço Cultural Antônio Adolpho

Rua Ibituruna, 550 - Saúde - SP

Ver um dragão nos céus de São Paulo só poderia ser um devaneio, ou o fim do mundo. O quê viria depois... explosões sem fim, medo e delírio ao ouvir os gritos desesperados das vítimas indefesas, sendo rechaçadas... Esquartejadas. Cercado pelo inferno em vida. Isto é só uma idéia do que tem no livro “Crônicas de Nord”, dos autores Marco Verticchio e Arnaldo Ribeiro, graduados em Design Gráfico e amantes de RPG.

Lançamento do livro Escancarado

Escancarado

Mais uma dica da Letícia. ***

01/07/2008 – LANÇAMENTO DO LIVRO “ESCANCARADO”

AUTOR: BRENO RESOSTOLATO

Horário: 19h as 22h

Local: Espaço Cultural Antônio Adolpho

Rua Ibituruna, 550 - Saúde - SP

"Escancarado é um livro dividido em duas partes: poesias e pensamentos. Tanto as poesias quanto os pensamentos ilustram bem a maneira de pensar do autor, que ora mostra-se apaixonado e afetuso, ora desorganizado e conflituoso. Desde sentimentos piegas à apelos sexuais, a obra expõe a pluralidade e possibilidades do ser humano ao confrontar-se com o outro. Convida-nos a vasculhar e escancarar nosso interior, nossas raízes, buscando as revelações de cada um".

Frases vivas de uma noite morta

Frases vivas

É por bons motivos que eu estava injuriado. Mesmo assim não resisti. Me olhei no espelho e resolvi sair pra tentar me convencer a fazer alguma bobagem. E fiz. Calculei a hora em que as turmas saem numa sexta, fiz a barba para não parecer um cara velho, vesti uma roupa de mais cores, justa no corpo, gel no cabelo, óculos coloridos, anéis e colares... estava mesmo um tanto... não sei como dizer, mas pela rua me chamaram de "bicha", "modelo fashion", "palhaço punk" e outras como "ponto disfarçado de asterisco". Dá pra acreditar?

Tudo bem. Eu não ligo pra essas coisas. Eu fico mesmo é com pena dos que por algum motivo não são livres por si mesmo, dos que por qualquer motivo se incomodam e buscam atitude tanto quanto idiota, dos que por todos os motivos se matam aos poucos numa infinita procura de ilusões. Os antigos guerreiros eram bons em curtir a vida. Afinal, o que é mais adrenalínico do que as faíscas de algumas espadas bem pesadas se chocando em busca do seu peito ou seu pescoço?

Um tanto injuriado e odioso é um guerreiro. Sua vida resume-se em uma certa matança, talvez uma certa ignorância em respeito ao próximo, uma certa intolerância aos bons modos e uma total imparcialidade quanto à vida humana e seus valores.

A noite se descobria a cada segundo. A cada lugar que a visão percorria era um momento único e inesquecível na inconfortável busca de bobagens. Eu, na minha perplexa visão inconformada, tentei por um minuto não enxergar o que via, mas era impossível segurar os meus pensamentos. Sinceramente, não sou eu que os guio e nem os crio. Os pensamentos simplesmente surgem dentro de minha cabeça. São como uma tempestade incansável sobre uma área já alagada.

Mas que diferença há entre os antigos guerreiros imbecis e os atuais vândalos? Eu sempre vejo algum motorista na rua xingando um outro. "Filho da Puta", "Vai tomar no Cú", "Sai daí ô", "Comprou a Carteira?", "Ô Anta", "Desgraçado", “Tinha que ser Mulher”. Sempre tem um desses "meninos" de rua com um gargalo de garrafa na mão. Só o gargalo, não a garrafa inteira. Sempre tem um punk com uma lata de spray na mão pixando as estátuas da praça da estação. Sempre tem um mendigo enriquecendo em um semáforo. Sempre tem um político desviando a verba da cultura, da saúde, do esporte, da educação e/ou de qualquer outra área, para contas bancárias fantasmas em algum lugar. Sempre tem uma banca de revistas na calçada cheia de notícias escandalosas. Sempre tem uma equipe contratada pelos EUA para ter o controle da guerra. Sempre tem uma mulher de seios fartos e bunda grande nua estampada em qualquer lugar. Sempre tem tanto sempre que para sempre será sempre.

Jovens não precisam ter vinte anos. Jovem pode ter doze ou quarenta e dois. Jovem que é jovem sempre foi e será jovem. Quem não é jovem nunca será. E quem busca ser jovem é brega ou desorientado. Taí o meu conceito de jovem: Jovem é aquele que não se conforma e se manifesta a respeito do mundo atual, as imposições do sistema ou qualquer manifestação política inadequada e incoerente. Jovem é aquele que se rebela diante os fatos que acreditam estarem incorretos. Eu me considero um cara jovem. Não fico calado diante dos absurdos mundiais. Mas também não acho que ficar gritando os outros no meio da rua seja uma forma pós-conceituosa de interagir com as idéias sociais. Digo isso pelos que me chamaram de "bicha", "modelo fashion", "palhaço punk" e "ponto disfarçado de asterisco".

Já disse que não ligo para os nomes que me chamam. Mas onde será que está a incoerência de um cara vestido do jeito que quer? Será que esse cara é politicamente incorreto? Será que ele não trabalha? Será que fica pedindo esmolas num farol? Será que ele tem uma namorada ou namorado? São tantos serás que nenhum é palpável. Posso fazer quantas afirmações quiser. Posso ser mesmo um qualquer coisa que quiser.

Mesmo assim eu me exponho. Me mostro a cara a tapa. Me corto com o pedaço do espelho quebrado. Me jogo contra a parede num ato de alegria. Saio na sexta à noite sozinho. Deixo que o que algumas pessoas chamam de xingamento não me atinja. Não suporto ver uma mulher chorando. Ligo pra polícia quando vejo alguém sendo assaltado. Eu mesmo prendo o pivete que ameaça uma pessoa na rua.

Depois disso tudo ainda me chamam de palhaço. Ah, se eles soubessem. Eu sou mesmo um palhaço. Só que eu sou profissional. Palhaço profissional. E tenho orgulho. Acho que é preciso ter um reconhecimento nessa área. Quando fui me alistar no exército, a moça me perguntou: "Qual é sua profissão?". Eu tive que responder sinceramente: "Palhaço.". Então ela disse: "Quero a sua profissão de verdade.". Na hora eu inventei uma pra ver se colava: "Músico.". Não é que deu certo? Lá na lista que ela tinha em mãos havia um campo com a profissão: músico. Tinha que ter um campo para palhaço.

Não sei ao certo, mas deve haver um monte de profissões por aí que ninguém dá a mínima. E por isso, quando estou num semáforo fazendo números de malabarismo, passa alguém na rua e grita: "Vai trabalhar, ô!". Êta pessoal que gosta de gritar. Parece que nunca gritaram quando crianças. Quando eu tinha uns dez anos, adorava subir na Serra do Curral e ficar gritando lá de cima. Eu gritava até ficar bem rouco, sem quase poder falar. Hoje não lembro bem "o quê" realmente eu gritava, quais eram minhas palavras, mas sei que mesmo quando gritava AAAAAAAAHH..., era um prazer incomensurável.

Acho engraçado o prazer de uma criança. Acho engraçado também o meu prazer. São coisas tão mínimas, vistos aos olhos experientes das pessoas adultas, que eu acho engraçado. Rio à beça. Às vezes fico todo arrepiado. Só de pensar que um simples sorriso pode modificar toda uma vida, fico mesmo sorrindo sempre.

Deve ser por isso que as pessoas ficam gritando os outros na rua. Quem dá o grito deve se sentir satisfeito. Deve ser como alguns orgasmos seguidos (porque hoje ninguém mais se satisfaz com um orgasmo só), até a exaustão total. Deve ser como correr na São Silvestre. Escalar o Himalaia. Deve ser a mesma coisa que eu sentia quando gritava do alto da Serra do Curral. Porém sem o eco da Serra.

Nessa noite, pensando um monte ao mesmo tempo e com tantas idéias, surgiu uma que me impressionou: Já que o prazer é de gritar, darei a quem grita o prazer do eco! Então tudo que gritavam a mim eu respondia: "Ô bicha" - "Ô bicha", "Ô fashion" - "Ô fashion", "Ô palhaço punk" - "Ô palhaço punk", "Ô Filho da Puta" - "Ô Filho da Puta", "Vai tomar no Cú" - "Vai tomar no Cú", "Sai daí ô" - "Sai daí ô", "Comprou a Carteira?" - "Comprou a Carteira?", "Ô Anta" - "Ô Anta", "Desgraçado" - "Desgraçado", “Tinha que ser mulher” - “Tinha que ser mulher”, "Vai trabalhar ô" - "Vai trabalhar ô".

Esse povo, viu, vou te contar. Não têm mais nada o que inventar. Quando falo assim eu me incluo na lista. Sem hesitar. Quando grito alguém na rua é porque alguém está longe e preciso muito falar alguma coisa importante. Senão eu passo batido. Viro pro outro lado. Atravesso a rua. Faço qualquer coisa, a não ser gritar. Eu tinha mesmo que passar por isso. Já estava sentindo no ar. Sexta-feira, à noite, umas calçadas escuras, alguns passos no meio da rua, uma roupa colorida, barba feita, gel no cabelo, o mundo parecia que se partiria ao meio.

E já que tudo estava mesmo um tanto muito esquisito, resolvi tomar um bom "banho de poça", numa poça d’água que estava na rua Tomé de Souza, entre a avenida Cristóvão Colombo e a rua Pernambuco, para ver se escurecia algum pensamento (que estavam muito claros). Depois dei um abraço na loira vestida de branco e voltei para casa, lembrar do que aconteceu, e escrever isso para quando houver momento oportuno, mostrar àqueles que participaram sem saber de um pedaço de papel escrito por um compositor desconhecido que acredita em um mundo onde o prazer é encontrado na simplicidade, que a roupa usada por uma pessoa não interfere no seu ponto de vista, que a satisfação é fruto do que as pessoas têm dentro da cabeça, que os países não deveriam ter fronteiras (traçadas, políticas ou culturais), que existe forma de governo honesta, que todas as pessoas são iguais em inteligência e sentimento, que as pessoas unidas podem fazer o que quiser (até restaurar a natureza que foi destruída no planeta), que ama tanto todas as pessoas a ponto de viver pelo fato de viverem elas: as pessoas.

De encontro

Rua da Consolação

Quando a vi naquela varanda tive a impressão que era uma amiga de infância. Uma pessoa que comigo, sempre se deu bem e por algum motivo, mudou de endereço e acabou caindo no esquecimento por falta de contato. Pareceu uma situação daquelas onde dizemos "que bom ver você aqui, senti sua falta", mas sem precisar dizer nada. Um momento onde o tempo se desdobra intenso, quebra as regras de marcação se tornando mais parecido com o infinito. Um lapso de memória futura, lembrança de algo que ainda não aconteceu, que extravia os conceitos de acontecimento já definidos.

Não acredito em fatores pre-determinados como já ouvi diversas vezes teorias sobre destino. Destino é a consequência de um ato pensado, elaborado e bem definido. Também pode ser quando viajo, daqui para o local de destino. O Michaellis diz que destino também pode ser "entidade misteriosa que determina as vicissitudes da vida". De vicissitude, entendo eventualidade. Entidade é um órgão, governamental ou não, com ou sem fins lucrativos, de sociedade única ou limitada. Entidade misteriosa, só conheço as de terreiro e centro espírita. Prefiro acreditar que eu decido a hora e o momento. Tenho as rédeas do pensamento. Faço o tempo despedaçado, mas pra qualquer efeito, não sou culpado. Bem que às vezes não dá pra segurar o pensamento, nem tentando pensar em outra coisa. Isso tem até acontecido com frequência, principalmente nas horas de descanso, onde não consigo tirá-la da cabeça. Acho que é porque não está na cabeça. Está em meu corpo, por meu sangue, abraçado com minha alma.

O tempo é igualmente proporcional à vontade e interferência da gente. Uma hora pode ser muito tempo, assim como um mês pode ser pouquíssimo. Nessa variação dinâmica, o tempo do tempo quem faz é a gente. O tempo é imprevisível, desejável, oportuno, concebido. Mesmo com todas as diferenças pessoais, educacionais, de pontos de vista e posturas em relação às questões gerais, a vontade e o prazer em "ser" parte de um inteiro em conjunto é altamente dependente do tempo. Do nosso tempo.

Quando a encontrei, alguns dias depois que a vi, o tempo se tornou troca. Um vai e vem intimista e minucioso de olhares certeiros, como na música do Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles. Qualquer dúvida relativa ao acontecimento de alguma coisa que tivesse ficado na varanda se perdeu ali. Foi como desvendar um mistério da ciência. Afirmar uma nova filosofia. Transcender a arte.

No meio da transparência de uma situação definida, fiz-me o avesso e ao reverso, estabelecido, na busca da junção do que parece um quebra-cabeça de peças perfeitas, de resultado impecável, onde os encaixes se tornam invisíveis quando as peças são unidas. Me senti átomo. Parte fundamental da formação da matéria. O essencial de um elemento. Atômico. Explodido de exuberância e fraternidade. Átono. Calado pela pureza do encontro. Sem tônica de expressão. Atônito. Entorpecido da maravilha do desconhecido que nunca tive antes vontade de descobrir.

Tentei passar despercebido pelo desejo mas não teve jeito. Tentei ser duro como rocha mas me deu defeito, não tive peito. Fiz o possível do provável para parecer desleixo mas fui suspeito. Derreti de repente. Derrapei no rompante. Atolei numa lama. Refiz os versos da canção que esperava ser composta. Expandi a melodia singular tirando-a num solfejo. Harmonizei o que não tinha outro jeito a não ser cacofônico. Escalei cromático um segmento diatônico.

Agora, percebo quieto o som do desejo. Sozinho, moderado, lembro intenso o gosto do beijo. Desarmado e vulnerável, o que está feito, está feito.

Admirado, quando ela quiser eu apareço.

Fase dois da reflexão da janela,
aos que se identificaram.

Ao(s) Davi(s)

O Davi

Estava conversando com a Stefanie e no meio das coisas comuns descobrimos que nossos filhos têm o mesmo nome. Foi ela ler o poema que fiz ao meu Davi pra enviar dois poemas, feitos ao Davi dela. Aí vão os três, para melhor análise de semelhança. Gostei!

.1

Meu sobrinho Davi
naaaaasceu
Eu vi Davi
Davi é rei
Davi dádiva
da vida
Davi é vida
eu sei

Dani Morreale

.2

Davi é estrela
Estrela do mar
Estrela do céu
Estrela de Davi
Estrela da vida
Da vida amar,
Amado,
amigo
Da vida
Dádiva
Viva Davi

Paulo Paiva

.3

davi
da vida
dádiva
da vida
vi

Leonardo Silva

E viva o(s) Davi(s)!